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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Inventário das Ausências

 



E em um domingo à noite,

Depois de todo tempo com o corpo anestesiado,

A dor escorreu em forma de lágrima,

Lastimando não aqueles que se foram,

Mas aqueles que com seus corações partidos ficaram.

E o abraço que mais precisei não veio.


Veio apenas o silêncio,

Sentando-se ao meu lado sem pedir licença.

Veio a saudade,

Revirando gavetas da memória

E espalhando retratos pelo chão da alma.


Chorei por quem partiu,

Mas também por quem permaneceu,

Carregando ausências nos ombros

E aprendendo a caminhar

Com um pedaço a menos de si.


Naquela noite entendi:

O luto não mora apenas nos cemitérios,

Ele faz morada nos que ficam,

Na poltrona vazia na entrada,

Nas palavras que já não encontram destino,

E nos abraços que nunca chegam.


Ainda assim, amanheceu.

E entre lágrimas e lembranças,

O amor permaneceu de pé,

Como uma vela acesa contra o vento,

Pequena, frágil,

Mas insistindo em iluminar a escuridão.


Nara Ferreira

22 de Junho de 2026

Legado de Amor


A vida chegando ou partindo não pede licença

Chega de repente arrombando a porta

Cancelando planos feitos outrora


Todos reunidos em festa

Todos reunidos em despedida

Filhos, netos, bisnetos

Parentes, vizinhos e amigos


Entre risos e prantos

Lembranças de tempos felizes

Legado de afeto e amor deixados


Na mesa o lugar vazio

No peito a presença inteira

Ecoando em cada canto


Porque quem parte do mundo

Não parte de quem amou

Fica em gesto, voz e memória

Feito luz que não se apagou.


Nara Ferreira

14 de Junho de 2026

Chamado das Águas



Tem dias que chegam de surpresa,

Entusiasmando aqueles que nada esperavam,

Cobrindo de expectativas, planos e sonhos.

Na calada da noite, a mente não descansa,

Orquestrando, em silêncio, os detalhes da viagem.


Bailique, oh Macedônia,

Arquipélago de uma quinzena morada,

Refúgio onde o tempo se deita manso sobre as águas,

Correnteza que me chama pelo nome e me leva, inteira,

Abraçando o início de uma jornada.


Nara Ferreira

27 de Abril de 2026

terça-feira, 7 de abril de 2026

Fogo de Ebó

 

Adorável Deusa do Fogo,

que me inflama com sua poesia,

incendeia toda a minha vida,

encanta-me com cinzas,

como a vela amarela que alumia meu ebó.

 

E há um nome que arde em silêncio,

como chama que não se mostra inteira,

mas insiste em permanecer.

 

Algo em você acende caminhos

que eu nem sabia guardar

e, sem alarde, me transforma.

 

Se é reza, eu sussurro;

se é fogo, eu consinto;

se é destino… deixo queimar devagar.

 

Porque no que em mim se ilumina

há sempre um traço seu,

mesmo quando não digo.

 

Nara Ferreira

06 de Abril de 2026

Essência que Fica



Teu cheiro suave, morena,

me deleita,

me aquece,

me embriaga.

 

Teu cheiro suave, morena,

me conforta,

como o perfume da terra molhada

depois da chuva que acalma o mundo.

 

Tem o doce sabor do jambo,

a leve fragrância das acácias,

e um sopro de lembrança

que insiste em ficar.

 

Cheira a saudade,

a nostalgia,

à tua própria marca

impressa em mim...

 

Como quem fica

mesmo quando já se foi.

 

Nara Ferreira

29 de Março de 2026

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Regressão



Estão calando a nossa voz,

roubando a nossa liberdade,

matando nossas irmãs,

mantendo-nos em cárcere privado.

 

Num mundo que se diz evolução,

regredimos passo a passo,

enquanto o progresso veste máscaras,

 a violência contra a mulher se instaura.

 

Chamam de ordem o nosso silêncio,

de costume a nossa ferida;

mas cada corpo que cai

é um grito que a história não apaga.

 

Não é exagero, não é acaso,

é sistema, é repetição.

Enquanto uma de nós sangra,

todas sangramos em comunhão.

 

Nara Ferreira

16 de fevereiro de 2026

Depois da Última Página



Morri aos 34 anos

Deixando para trás

cartas de despedida,

objetivos alcançados,

momentos felizes com a família

e uma filha que nunca tive.

Enterrei minhas mágoas,

minhas desavenças,

meus orgulhos e indiferenças,

meu sofrimento frequente.

E quando pensei ser o fim de tudo,

renasci como fênix das cinzas,

recebendo o sinal de uma nova vida,

ganhando uma página em branco

para escrever um novo livro.

 

Nara Ferreira

20 de janeiro de 2026

Marés do Esquecimento


 

Essas águas que outrora eram barrentas

E hoje são cristalinas como as memórias que se foram

E hoje se tornaram rimas então

Embalando mergulhos contínuos ao som das inúmeras embarcações

Nos ninando aos braços de mamãe

Oxum

 

Mas há dias em que a maré esquece o caminho da volta,

E o nome dos portos se dissolve no vento.

Os rostos amados viram ilhas distantes,

E o ontem escorre pelos dedos como água que não se segura.

 

Ainda assim, o afeto permanece ancorado,

Mesmo quando a lembrança naufraga.

Há um amor que não precisa de memória

Para reconhecer o calor do colo

O brilho do toque,

A paz que mora no olhar.

 

Oxum segue lavando as dores,

Guardando o que a mente não alcança mais.

Porque, mesmo quando tudo se esquece,

O coração, esse rio antigo

Nunca desaprende de amar.

 

Nara Ferreira

30 de Dezembro de 2025

 

Travessia Escarlate


Trago no corpo o murmúrio dos que vieram antes.

Nas veias, corre um rio antigo

feito de águas que sabem o nome da minha avó.

 

Ela sussurra em mim quando o silêncio pesa,

me ensina a atravessar o tempo

com o passo firme de quem já foi vento e raiz.

 

Há fronteiras que não se veem,

mas doem

entre o ontem que me chama

e o agora que me dispersa.

 

Sou feita de travessias:

de barcos que não voltam,

de vozes que ainda ecoam nas marés da lembrança.

 

Cada território que piso

é um altar de saudade.

A terra reconhece meu nome

mesmo quando eu me esqueço de dizê-lo.

 

Carrego o rosto dos meus mortos na pele,

não como luto,

mas como mapa.

 

E sigo,

cruzando rios invisíveis,

com o coração incendiado

pela memória dos que me ensinaram

a não temer as águas.

 

Nara Ferreira

10 de Novembro de 2025