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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Travessia Escarlate


Trago no corpo o murmúrio dos que vieram antes.

Nas veias, corre um rio antigo

feito de águas que sabem o nome da minha avó.

 

Ela sussurra em mim quando o silêncio pesa,

me ensina a atravessar o tempo

com o passo firme de quem já foi vento e raiz.

 

Há fronteiras que não se veem,

mas doem

entre o ontem que me chama

e o agora que me dispersa.

 

Sou feita de travessias:

de barcos que não voltam,

de vozes que ainda ecoam nas marés da lembrança.

 

Cada território que piso

é um altar de saudade.

A terra reconhece meu nome

mesmo quando eu me esqueço de dizê-lo.

 

Carrego o rosto dos meus mortos na pele,

não como luto,

mas como mapa.

 

E sigo,

cruzando rios invisíveis,

com o coração incendiado

pela memória dos que me ensinaram

a não temer as águas.

 

Nara Ferreira

10 de Novembro de 2025

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