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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Regressão



Estão calando a nossa voz,

roubando a nossa liberdade,

matando nossas irmãs,

mantendo-nos em cárcere privado.

 

Num mundo que se diz evolução,

regredimos passo a passo,

enquanto o progresso veste máscaras,

 a violência contra a mulher se instaura.

 

Chamam de ordem o nosso silêncio,

de costume a nossa ferida;

mas cada corpo que cai

é um grito que a história não apaga.

 

Não é exagero, não é acaso,

é sistema, é repetição.

Enquanto uma de nós sangra,

todas sangramos em comunhão.

 

Nara Ferreira

16 de fevereiro de 2026

Depois da Última Página



Morri aos 34 anos

Deixando para trás

cartas de despedida,

objetivos alcançados,

momentos felizes com a família

e uma filha que nunca tive.

Enterrei minhas mágoas,

minhas desavenças,

meus orgulhos e indiferenças,

meu sofrimento frequente.

E quando pensei ser o fim de tudo,

renasci como fênix das cinzas,

recebendo o sinal de uma nova vida,

ganhando uma página em branco

para escrever um novo livro.

 

Nara Ferreira

20 de janeiro de 2026

Marés do Esquecimento


 

Essas águas que outrora eram barrentas

E hoje são cristalinas como as memórias que se foram

E hoje se tornaram rimas então

Embalando mergulhos contínuos ao som das inúmeras embarcações

Nos ninando aos braços de mamãe

Oxum

 

Mas há dias em que a maré esquece o caminho da volta,

E o nome dos portos se dissolve no vento.

Os rostos amados viram ilhas distantes,

E o ontem escorre pelos dedos como água que não se segura.

 

Ainda assim, o afeto permanece ancorado,

Mesmo quando a lembrança naufraga.

Há um amor que não precisa de memória

Para reconhecer o calor do colo

O brilho do toque,

A paz que mora no olhar.

 

Oxum segue lavando as dores,

Guardando o que a mente não alcança mais.

Porque, mesmo quando tudo se esquece,

O coração, esse rio antigo

Nunca desaprende de amar.

 

Nara Ferreira

30 de Dezembro de 2025

 

Travessia Escarlate


Trago no corpo o murmúrio dos que vieram antes.

Nas veias, corre um rio antigo

feito de águas que sabem o nome da minha avó.

 

Ela sussurra em mim quando o silêncio pesa,

me ensina a atravessar o tempo

com o passo firme de quem já foi vento e raiz.

 

Há fronteiras que não se veem,

mas doem

entre o ontem que me chama

e o agora que me dispersa.

 

Sou feita de travessias:

de barcos que não voltam,

de vozes que ainda ecoam nas marés da lembrança.

 

Cada território que piso

é um altar de saudade.

A terra reconhece meu nome

mesmo quando eu me esqueço de dizê-lo.

 

Carrego o rosto dos meus mortos na pele,

não como luto,

mas como mapa.

 

E sigo,

cruzando rios invisíveis,

com o coração incendiado

pela memória dos que me ensinaram

a não temer as águas.

 

Nara Ferreira

10 de Novembro de 2025

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Porto de Afetos

 

Meu coração pousou brevemente no lindo Ceará,

um barquinho aportando no seu porto seguro,

carregando pequenas partes de mim

que foram entregues a quem pertenciam.

 

Retornei ao meu Amapá

trazendo nas malas lembranças valiosas:

sorrisos gentis,

abraços calorosos,

promessas de reencontro,

uma meta de vida alcançada

e a certeza de que novos ventos

sempre me levarão a bons portos.

 

Nara Ferreira

2 de novembro de 2025

 

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Reflexo Colorido



No espelho, um arco-íris se deita,

não pede desculpas,

não pede permissão.


É carne, é riso, é ferida aberta,

é abraço que desafia a norma.


Ser quem sou é poema vivo:

na rua, no corpo, no beijo,

na esperança de que amar

seja sempre revolução


Nara Ferreira

22 de Agosto de 2025

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Passarinhar



Quero ser passarinho e deitar no teu ninho

Assoviar canções de ninar

Quero ser passarinho e voar a sete mares

Pelos rios da Amazônia a te procurar


Quero ser passarinho e bicar teu sorriso

Fazer gracejos de amor e luar

Quero ser passarinho e com muito carinho

Usar minhas asas para te acariciar


Quero ser passarinho, quero ser teu zéfiro

E na tua floresta para sempre passarinhar


 Nara Ferreira

 01 de Agosto de 2025

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Folhedo

 


É só um pedaço de papel

Mas nele se encontram todas as minhas lamúrias

Minhas lástimas e descontentamentos

Meus vícios e loucuras

 

É só um pedaço de papel

Mas refletem minha alma

Minha voz amorosa que pouco a pouco é silenciada

Meu grito vazio que não se acalma

 

É só um pedaço de papel

Com tintas borradas com minhas lágrimas

Com o peso da minha escrita solitária

Com o canto de tambores da minha morada

 

É só um pedaço de papel

Feito da árvore que me assombreou a infância

De galhos que contam histórias e lembranças

De um lar nomeado retiro floresta

 

Nara Ferreira

04 de Abril de 2025

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Overdose de Amor Próprio


Não teve champanhe estourando,

Nem banquete de réveillon.

Não houve abraços calorosos,

Muito menos família em união.

 

Somente eu e minha alegria,

Sob o brilho dos fogos que a noite trazia

Enquanto o novo ano nascia,

Percebi minha companheira: a solidão.

Mas, diferente de outros dias,

Ela veio sorridente, gentil e amiga.

 

Me envolveu em um abraço leve,

Trazendo paz, conforto e serenidade.

E, por um momento, me perguntei:

Seria isso uma overdose de amor próprio?



Nara Ferreira

01 de Janeiro de 2025


quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Ecos de Novembro

 


Parece que tenho ouvido um canto de despedida

Ecoando em meu coração e pensamentos

Sinto que minha voz calou em 5 de Novembro

É um querer falar e não conseguir me expressar com palavras

Acordar com a sensação de que ainda podemos fazer algo

 

Mas o tempo segue seu curso sem trégua,

e cada silêncio é um adeus disfarçado.

Vejo a vida escapar em finos fios de saudade,

como uma canção interrompida que só eu ouvi.

 

Ainda resta a esperança tênue e insistente,

que me faz crer que nada se perdeu,

que em algum lugar, entre as sombras e as luzes,

nossos ecos encontrarão abrigo, nossos cantos, alento.

 

Nara Ferreira

13 de Novembro de 2024


Brincadeiras do Destino


O destino é um brincalhão,

gosta de brincar com nossos reencontros.

Um dia me despedi em meio às lágrimas,

hoje te abraço com sorriso no rosto,

ainda com o coração brando.

 

Cada ida e vinda me ensinou paciência,

me fez entender que o tempo tem seu próprio compasso.

Entre o adeus e o reencontro, cresci,

e ao te encontrar de novo, já não sou mais o mesmo.

 

A vida nos molda com sutileza,

transformando-se em paz, espera em ruptura,

e agora, diante de você,

sinto que cada despedida valeu o reencontro.

 

Nara Ferreira

13 de Novembro de 2024

O Que Nunca Será


 

Há coisas que nunca vou ter

aquele leve sorriso bobo,

a sensação de flutuar nas nuvens,

brincadeiras de uma menina inocente,

Um breve olhar indecente


A malícia escondida nas palavras,

o doce sabor do desejo disfarçado de saudade,

as conversas carinhosas de madrugada,

o afago no cabelo após um dia cansativo,

a dança do desejo sendo recriada nos mais largos passos.

 

São sonhos guardados em silêncio,

momentos que se perdem em vão,

um universo só meu, inatingível,

feito de tudo que nunca será,

mas que insiste em viver enraizado no coração.

 

Nara Ferreira

13 de Novembro de 2024

sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Insegurança



Esse teu jeito meio distante

Esse teu olhar vago constantemente

O teu silêncio de indiferença

Faz-me sentir insuficiente.

 

Tornei-me então refém dos meus cabelos,

Da minha imagem refletida no espelho,

Da minha própria auto sabotagem,

Das opiniões formadas com base na minha imagem.

 

O pavor e o desespero diante da minha própria ausência,

Criando máscaras para me proteger,

Enquanto me afogo em inseguranças.

Sinto-me perdida, querendo renascer.

 

Quem sou eu além das aparências?

E se eu desaparecer nas sombras do que você espera?

Talvez, um dia, descubra na solidão,

Que a pior prisão é a que construí com o coração.

 

Nara Ferreira

10 de Outubro de 2024

Amigo Virtual




O isolamento chegou

O mundo entrou em caos e solidão

Estar encarcerado em seu lar para proteção

Barreiras e barreiras de contato físico

Causando terrores e extremas emoções.


O sistema então tornou-se uma ponte de salvação,

Ligações de vídeos diárias,

Companheiros conectados, inseparáveis,

Novos refúgios e famílias sendo encontradas,

Uma pausa no tempo permitindo um contato profundo

Com pessoas de diferentes culturas e lugares.


Noites de risos intercontinentais,

Interação de gostos em comum,

E apesar da distância, as almas se cruzam

Nessa rede invisível, onde a amizade floresce

Sem nunca precisar de um abraço,

Mas com corações que, ainda assim, se aquecem.


Nara Ferreira

10 de Outubro de 2024



segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Cantadeira do Norte


Nascida em berço das águas e da mata

Ninada no batuque de ladainhas e rezas

Com o ressoar do tambor e do canto

Sou filha do norte, da natureza

Poetisa banhada nos rios da Amazônia.

 

Meus versos navegam em canoas de esperança,

Remando por entre árvores que sussurram histórias,

No Marabaixo, embalando as águas da tradição,

Escrevendo poesias, ricas como os frutos da floresta,

Florescendo em cada canto, em cada palma desse solo fértil.

 

São palavras que brotam das raízes do norte,

Encharcadas de chuva, de rios, de fé,

Cultura que se funde à paisagem,

Entre a dança do marabaixo e as marés,

Deslizam poesias, cantam as águas entre sereias e tucunarés.


Riqueza que não se toca, mas se sente,

No ritmo do tambor, no murmúrio do vento,

Literatura que deságua em alma e coração,

Filha do Amapá, da natureza em expansão,

Sou poetisa, herdeira de um tesouro escondido neste torrão.


Nara Ferreira

28 de Agosto de 2024


sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Epifanias de um domingo

 


Onde estão os risos

As conversas felizes com amigos

O sentir protegida e segura

Nos braços dos entes queridos?

A solidão falou comigo no domingo,

Trouxe de bagagem o desespero

E de lembrança apenas o meu desapego.

 

O grito de socorro silencioso

Queima como lâmina na garganta,

O mundo dos sonhos me abraça,

A fugir da dor e da realidade.

A necessidade de escrever a última carta

E virar apenas uma camisa de saudade.

 

Perdida nas horas vazias,

Envolta em sombras de tristeza,

Vejo os sonhos que um dia tive

Se desfazerem em poeira e ausência.

A cada linha escrita, um pedaço de mim

Se desprende e cai no abismo da melancolia.

 

Esperar pelo amanhã parece em vão,

Pois a escuridão se estende sem fim,

E a esperança, distante e frágil,

Dissolve-se no mar de lágrimas.

Restam-me apenas as palavras,

Ecoando em um silêncio eterno,

Enquanto me torno memória, um vestígio,

Na vastidão de um domingo solitário.

Nara Ferreira

02 de Junho de 2024

sábado, 23 de março de 2024

Brincando de eternizar




No pátio da infância, risos ecoam alegres,

Duas irmãs unidas, corações sempre leves.

Pulando cordas juntas, dança de passos sincronizados,

Vínculo que o tempo, com tanta doçura, tem preservado.

 

A corda gira, como o tempo que se desfaz,

Mas a cumplicidade entre irmãs jamais se desata.

Entre risadas e saltos, segredos compartilhados,

Um elo eterno de laços de amor entrelaçados.

 

Os cabelos ao vento, entre risos repletos de covinhas,

A infância é uma canção, por suas almas tocadas.

Pulando alegremente, desafiam o chão,

Cada salto uma memória que na vida eternizam

 

Na simplicidade do momento, a magia se revela,

Irmãs pulando corda, numa dança singela.

Os olhares se encontram, sorrisos se entrelaçam,

Nessa ciranda de afeto, que nenhum tempo desfaça.

 

Sempre cultivando para florescer em nós,

Duas menininhas de largos sorrisos, corações leves.

Nossa essência, pura, verdadeira,

Cerne da clareza, profunda e inteira

 

Poesia conjunta

Nara e Nathália Ferreira

24 de Janeiro de 2024